Aquilo era um sonho... Sim, eu sabia que estava dentro de um sonho, mas aquela cena me dava medo, não sei. Eu sabia que algo de ruim estava para acontecer, mas eu não sabia ao certo o que era. Eu estou dentro de um quarto todo branco, e uma pessoa no canto daquele quarto estava com um pano preto por cima de si, segurava algo nos braços, eu sentia um cheiro horrível de carne apodrecendo, eu não conseguia identificar o que era.
Fiquei curioso em saber o que estava acontecendo, queria saber o que era em suas mãos, da onde vinha o cheiro e por que usava aquele véu negro cobrindo o seu corpo. Fui chegando perto, e à medida que eu ia andando mais perto daquela figura imóvel o cheiro de carne podre ia aumentando, aumentando... Chegou uma medida que eu não suportava mais o cheiro e tapei a minha narina.
Cheguei ao lado daquela mulher... Sim, era uma mulher, não sei bem ao certo por que tirei aquela conclusão, mas tinha porte de mulher, e ela gemia, mas não era um gemido qualquer... Era gemido de dor, angustia e desespero. Eu não sabia aonde enfiar as mãos, fiquei desconfortável, nada que eu fizesse ia fazer com aquela mulher calasse a boca, e então botei uma de minhas mãos no seu ombro.
Ela levou um susto e levantou o rosto, uma visão horrível, drástica... Ela era realmente a mulher mais feia que eu já vi na minha vida.
"O que aconteceu senhora, precisa de ajuda?"
Ela não muda de posição, a sua boca quase não se meche.
"Não preciso, só estou aqui para te mostrar uma coisa."
"Que coisa?"
Ela destapa o que esta segurando com um dos braços, e eu descubro de onde aquele cheiro estava vindo, eu tive náuseas, e por um momento eu volto ao meu estado normal. Aquela criança devia ser um recém nascido, ele estava apodrecendo em vida, sua carne era preta, tenebrosa, eu me sinto desesperado. Para que eu queria aquela criança? Quem quer ter um filho cuja carne está apodrecendo? Seria verdadeiramente impossível! Ela estende a criança e grita com uma voz ensurdecedora:
"Esse filho é seu!"
O meu relógio desperta, eu levanto desesperado, soado, angustiado, quase chorando. Levanto nervoso e vou direto para o banheiro tomar um banho. Aquele sonho ficou na minha cabeça, eu não conseguia parar de pensar na minha esposa que estava grávida e nem naquela criança nos braços daquela mulher com o véu negro. Me seco, vou para o quarto, quando eu percebo minha mulher não esta deitada, vou correndo pela casa gritando o seu nome, mas nenhuma resposta me vem só o que eu escutava era o cachorro do vizinho latindo lá fora. Então eu escuto o meu celular tocando, ele estava em repouso sobre a cama, pego violentamente... Atendo.
"Alô! Quem tá falando?"
"Oi amor, sou eu."
"Cadê você querida? Onde você está? O que houve? Que voz é essa?"
"Eu estou no hospital, passei mal durante a noite, tentei te acordar, mas você não acordava, estava de debatendo sobre a cama, então eu peguei o carro e vim até aqui."
"Você era para ter me acordado! O que você está sentindo?"
"Nesse momento eu não estou sentindo quase nada, só dor..."
"Dor? Dor aonde?"
"No coração."
"Coração? Você está com problema de coração? Pelo amor de Deus querida, me fala o que está acontecendo, eu não tô conseguindo te entender."
"O nosso filho querido, o nosso filho..."
"O que aconteceu com ele? O QUE ACONTECEU COM ELE?"
*Nenhuma resposta, só um choro do outro lado, e então eu choro também... Eu já tinha quase certeza do que estava acontecendo*
"Querida, por favor... Fala comigo."
"Oi amor..."
"Diz que o nosso filho tá bem..."
"Eu tive uma hemorragia."
*Eu olho para a cama chorando, e me deparo com uma poça de sangue. Ela se cala e chora mais um pouco*
"O nosso filho faleceu amor... O nosso filho faleceu..."
Eu não conseguia descrever o que era aquilo que eu estava sentindo, eu chorei... Meu mundo desabou, aquilo com certeza foi pior que uma tentativa de suicídio, foi uma sensação fria, de vazio, aquilo era um massacre. No meu sonho a morte fez questão de entregar o meu filho, e só depois eu vi que aquilo tudo fez sentido pra mim.